Sábado de Luto!

O Sábado chamado santo, na verdade é um dia de luto. Para entendermos bem o que está acontecendo hoje, vejamos o que significa luto. O dicionário de Psicanálise associa o luto à melancolia que entre outros conceitos, diz que se caracteriza por um humor sombrio, isto é, por uma tristeza profunda e por manifestações de medo e de desânimo ( Roudinesco e Plon 505). Partindo daqui, dá para entender perfeitamente o que experimentaram Maria de Nazaré e os Discípulos de Jesus, naquele sábado, após o fatídico dia da Morte de Jesus. Havia uma esperança e num piscar de olhos, em plena festa, a maior de todas, a Páscoa, Jesus é emboscado e assassinado não às escondidas, mas em um espetáculo de horror, humilhações, dores e sofrimento.

O sábado de luto, é aquele momento, em que a fé cristã pára buscando entender o mistério da morte do Filho de Deus. E em meio a tantas interpretações, há este momento de silêncio e vazio, onde nenhuma resposta consegue explicar o porquê se mata inocentes. Neste dia, comove-nos as dores sofridas por Jesus, o modo como lhe arrancaram a vida, e junto a isso, principalmente a dor do coração dilacerado de Maria.

Esse acontecimento nos reporta a ocorridos diários em nossas comunidades. São várias as pessoas individualmente, bem como famílias inteiras vivendo este momento de dor, silêncio e luto. o vazio que invadiu a vida dos amigos de Jesus, invade ainda hoje a vida de muitas mulheres e homens, que buscam explicações para as suas perdas irreparáveis, para as quais não estavam preparados. Atrás de cada perda existia um projeto que ainda não se tinha concretizado.

Na perda de Jesus, havia todo um projeto de Reino, que deveria ser levado adiante, mas em seu lugar, hoje paira uma sombra escura e uma dor dilacerante. E todos começam a se perguntar por quê. Por que não previmos isso? Por que Ele não nos disse com mais clareza que isso iria acontecer? Por que Judas tinha que traí-lo? E por que nós covardemente fugimos todos deixando-o sozinho? E não adianta, os porquês não vão trazer Jesus de volta. Agora é calar e buscar uma alternativa para continuar o sonho ou se dispersar cada um para o seu lado. Alguns não suportando o silêncio e o vazio do cenáculo, onde estavam escondidos, se puseram a caminho para a aldeia de onde nunca deveriam ter saído acreditando num sonho que se revelou uma tragédia e quem sabe uma mera ilusão.

Assim é um sábado de luto. Tempo de reflexão e discernimento. Não é de graça, que a Igreja sabiamente propõe este dia entre a morte e a ressurreição. É um tempo terapêutico, para que todas emoções vividas nos dias anteriores, que vão desde a euforia da Ceia na quinta-feira à trágica morte do Anfitrião na sexta-feira sejam serenadas, ao mesmo tempo avaliar, se tudo isso ainda vale a pena. Se se pode continuar apostando nesta ideia de salvação, de céu, de reino.

Viver este momento é fundamental para se fazer também uma purificação da fé. Visualizar até onde se pode de verdade viver radicalmente tudo o que se acredita.

Aparentemente o sábado de luto é um dia estéril. Mas na verdade esse dia é de uma fecundidade sem precedentes. É neste ermo silencioso, que a alma se prepara para continuar acreditando, e daqui para frente fazer valer a memória do Mestre, levando adiante seu projeto, ou então, abandonar tudo e partir para outro projeto diferente.

Para quem apostar na continuidade, o domingo será de uma grande surpresa, e para quem desistir, o mesmo domingo voltará a ser um como tantos outros, que já se viveu.

Então que o sábado de luto seja vivido, como é, luto. Um luto que pode trazer novas perspectivas ou um luto, que não passará tão cedo.

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Pobre Servo da Divina Providência. Assessor Paroquial da Pastoral da Comunicação. Secretário Executivo do Regional Oeste 1 - CNBB.