Papa Francisco sendo Francisco

Quase ninguém teve o privilégio de escolher o próprio nome, e por isso a gente até agradece, porque atrás de cada nome existe um mandato, uma missão. Os pais, que normalmente são quem escolhem os nomes para os filhos, sempre buscam um nome, que diga muito para si mesmos, para suas famílias ou para a humanidade, daí temos pessoas com nomes que vão desde à Bíblia até astros do mundo artístico e científico.

Em muitas regiões da África, Ásia, bem como em muitos Povos Indígenas, os nomes das pessoas carregam um mandato, uma função social e/ou espiritual.

Na Igreja Católica, o nome do seu maior representante na Terra, o Papa, geralmente é escolhido entre os nomes dos santos canonizados ou então entre os nomes daqueles seus antecessores que são tidos como grandes na sua trajetória. Conhecemos  o mais recentes, João XXIII, Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II, Bento XVI e em 2013, fomos surpreendidos pela ousadia de uma Cardeal que veio do fim do mundo, como ele mesmo disse no dia da sua eleição, Jorge Mario Bergoglio, que fez o que nenhum outro seu antecessor teve coragem de fazer: assumir o nome de Francisco e com tudo o que ele representa na trajetória da Igreja desde a Idade Média até aqui.

Jorge Mario Bergoglio, ou Papa Francisco, desde o primeiro momento da sua eleição, diante de um mundo estarrecido e boquiaberto com o seu nome tão desconhecido, vindo de um Continente tão vivo, mas tão sofrido como é a América Latina, surpreende a todos, quando se inclina e pede que o Povo o abençoe. Ele, o máximo expoente da Igreja pede que o Povo com a sua força sacerdotal abençoe a ele e a sua missão tão espinhosa, em meio a uma Igreja, que vive momentos de poucas luzes e muitas sombras. Diante do enfraquecimento da fé do Povo, das denúncias de escândalos financeiros e sexuais por parte de alguns dos seus ministros sagrados e de uma cúria romana, que sem nenhum véu escancara sua luta pelo poder, ele, o desconhecido e nada cotado para tal função se mostra firme, forte e coerente com o nome, que ousou escolher. Suas palavras dizem bastante, mas o que de verdade o coloca como a pessoa com maior autoridade no Planeta, são seus gestos e seus exemplos.

Isso faz com que ele, seja uma pedra de tropeço para muitos, principalmente para quem vive uma experiência de fé que não acredita nem em Deus e nem no Reino, mas que somente utiliza a profissão de fé como um expediente para angariar efêmera visibilidade que vem dos holofotes e não do Evangelho.

A pequena trajetória de 06 anos de Ministério Petrino de Francisco já fez dele um gigante da ternura, do amor e da alegria. Todos os dias ele surpreende o mundo com um gesto, que para ele parece tão natural. Gestos que vão desde abraçar uma criança, servir o café da manhã para o guarda suíço que passou a noite em plantão, fazer parar o papa móvel na Praça de São Pedro ao avistar um simples sacerdote, que fora seu parceiro de luta pelo direitos e o amparo dos pobres em Buenos Aires, até chegar no gesto que estarreceu o mundo ontem (11/04):  ajoelhar-se com toda a dificuldade de seus 86 anos para beijar um por um, os pés dos líderes do Sudão,  que o visitava, e entre eles beijou os pés uma Mulher.

O que nós vimos como um gesto de humildade extrema, Francisco faz como algo muito comum para quem de verdade foi escolhido para ser um instrumento da Paz do Senhor, uma voz, que incessante clama pela fraternidade, justiça e dignidade. É relativamente fácil beijar os pés no ritual de lava-pés da Quinta-Feira Santa, mas beijar os pés de um Líder Mulçumano é só mesmo para quem não vê religião, mas caminhos, que conduzem os Filhos de Deus para o mesmo destino, o Reino.

Estamos às vésperas da Semana Santa, e Francisco já antecipou com este gesto, quais devem ser os discursos destes dias que fazem a memória da Paixão, Morte e Ressureição de Jesus Cristo de Nazaré, o Libertador.

Quem sabe, seguindo o exemplo do Francisco de Buenos Aires, nossa Páscoa de verdade seja o que a Palavra diz: passagem. Passagem de um hedonismo doentio para uma profunda experiência de Fraternidade, onde a discórdia seja por que motivo for, dê lugar à compreensão e ao respeito pela vida e o direito do outro.

Oxalá, que a humildade deste Homem de 86 anos, uma das pessoas mais populares na face da Terra, nos inspire a fazermos desta Páscoa uma transição da mediocridade e do marasmo para uma Igreja devidamente ativa, que além de louvores, tapetes vermelhos, muita fumaça e luxuosos paramentos, seja capaz de vestir-se de um avental, munir-se de uma bacia e com toda humildade do mundo ajoelhar-se e num gesto de conversão lavar não só os pés, mas a alma e coração de tantos irmãos, que nesta Semana Santa ficarão fora das suntuosas celebrações. Que as leituras e salmos das solenidades saiam dos templos ornados de flores e ecoem no jardim desolado, os corações de tantos irmãos e irmãs que perambulam pelas vias sacras da solidão e do abandono.

Que o nosso beijo na Cruz na Sexta-Feira Santa, seja materializado no beijo aos irmãos e se some ao beijo de Francisco, que estarreceu toda a Terra.

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Pobre Servo da Divina Providência. Assessor Paroquial da Pastoral da Comunicação. Secretário Executivo do Regional Oeste 1 - CNBB.