PADRE ÂNGELO, UM DOM PARA NOSSA COMUNIDADE

Hoje, terça-feira, nossa comunidade recebeu logo pela manhã a triste notícia do falecimento do nosso ex-pároco Pe. Ângelo Maschi. Ele estava internado há alguns dias no Hospital Sagrado Coração em Negrar-Itália.

Muitas histórias bonitas ouvi desde que cheguei aqui e hoje, seja conversando com algumas pessoas ou mesmo por depoimentos nas redes sociais, pude perceber como foi marcante para a nossa paróquia a presença desse querido padre.

Pe. Ângelo nasceu no dia 8 de julho de 1936, em Monteforte na província de Verona-Itália. Teve a graça de conhecer pessoalmente o nosso fundador, São João Calábria, pois entrou na congregação no dia 8 de dezembro de 1945, iniciando assim sua caminhada vocacional. Fez sua consagração como religioso pobre servo no dia 8 de setembro de 1958 e foi ordenado sacerdote do dia 7 de julho de 1963.

Em seus primeiros anos como religioso esteve acompanhando os meninos acolhidos nas casas da congregação em Verona, onde também cursou a teologia. Após sua ordenação sacerdotal atuou inicialmente no bairro de Cimiano em Milão-Itália, trabalhando na Paróquia de São Gerônimo Emiliani e no Centro Profissionalizante.

De 1965 a 1973, Pe. Ângelo atuou na Paróquia de Santa Maria Mãe da Misericórdia, em Roma. Após um pequeno período novamente na Casa-Mãe em Verona, foi destinado ao Brasil como missionário, onde permaneceu até o dia 2 de fevereiro de 2005.

Já no Brasil, Pe. Ângelo atuou inicialmente na Paróquia Nossa Senhora da Misericórdia, no Bairro Restinga em Porto Alegre-RS de 1974 a 1977. Em seguida, quis a providência divina que viesse trabalhar em terras sul-matogrossenses, começando aqui em nossa paróquia de Batayporã, onde permaneceu de 1977 a 1979. Em seguida, foi transferido para a Paróquia Nossa Senhora Aparecida, em Taquarussu, onde permaneceu até 1983, e de onde retornou para um segundo período aqui em nossa paróquia de Batayporã; período este que durou até 1991.

Nesse ano de 1991 atuou como pároco na Paróquia Nossa Senhora de Nazaré, em Marituba-PA e, já no ano seguinte, retorna para o estado do Mato Grosso do Sul, desta vez assumindo o cuidado pastoral da Paróquia São João Batista de Bataguassu. Ali permaneceu até fevereiro de 2001.

Seus últimos anos em terras brasileiras se deram na Paróquia Santa Teresa, na cidade de Rio Grande-RS de onde partiu para a Itália em fevereiro de 2005. Já de volta a sua terra natal, Pe. Ângelo esteve de 2005 a 2007 atuando na Casa-Mãe da congregação em Verona, através do atendimento espiritual e de confissões. Em 2007, assumiu a Paróquia São Miguel Arcanjo de Aguscello, na cidade de Ferrara. Esta era a sua missão até o momento.

Nos onze anos em que esteve à frente do cuidado pastoral em nossa paróquia, Pe. Ângelo se destacou, dentre tantos motivos, pelo seu cuidado com as crianças, adolescente e jovens daquele tempo; vale lembrar a criação do campinho de futebol, da sala de jogos, do incentivo aos coroinhas outros grupos juvenis. Outra lembrança muito viva ainda em nossa cidade foi o incentivo à construção das casas populares, o que trouxe o alívio de moradias dignas para algumas famílias de nossa comunidade.

Com certeza teríamos tantas outras recordações bonitas para colocarmos. Mas estas já nos ajudam a elevar a Deus nossa gratidão pela vida e missão que o Pe. Ângelo Maschi desempenhou em nossa comunidade paroquial.

Era nosso desejo que, passando essa pandemia, pudéssemos conseguir um depoimento seu para marcar e celebrar os 50 anos de nossa paróquia. Mas os desejos de Deus nem sempre são os nossos. Mas mesmo assim, louvamos e bendizemos a Deus por tantos religiosos que dedicaram parte de sua vida aqui em nossa comunidade tornando-a o que ela é hoje em seu jubileu de ouro.

Obrigado Senhor pela vida do Pe. Ângelo Maschi. Que ele descanse em paz!

MEU AGRADECIMENTO PESSOAL

Permitam-me acrescentar aqui meu agradecimento pessoal.

Geralmente um adolescente ou jovem quando pensa em ser padre é porque teve alguma referência de um padre que para ele foi modelo e o fez despertar para esta possibilidade: eu também posso ser padre!

Pra mim, pe. Éverton, essa primeira pessoa que me fez pensar nessa possibilidade foi o Pe. Ângelo Maschi. Até porque cresci vendo aquela imagem de padre que havia em minha paróquia lá em Bataguassu.

Quando eu era ainda criança, talvez com seis anos ou sete anos, encontrava o Pe. Ângelo seja na praça ou na igreja e ele me dizia: venha me visitar! Não, ele não me colocava pra dentro da casa nem me servia café, a visita significava tocar a campainha da casa paroquial e ele saia, me cumprimentava com seu sorriso característico, voltava para dentro e saia novamente com umas balinhas. Parecia algo simples, mas só depois a gente entende o significado destes pequenos gestos. Mas para uma criança estava mais do que bom sair com algumas balinhas na mão.

Já com oito anos entrei para a catequese e também para o grupo dos coroinhas. Aquelas músicas no alto-falante da igreja (“A jiboia me falou que tá com fome…” Só quem tem mais de 30 vai lembrar) dificilmente sairão da memória. Até para a missa das 6h30 da manhã na primeira sexta-feira do mês a gente ia pra ajudar o padre na missa. (Quem me conhece sabe como gosto de acordar cedo.)

Após adquirir experiência como coroinha, e ele era bem exigente nisso, comecei junto a alguns outros colegas a acompanhá-lo nas missas nas comunidades rurais. Éramos responsáveis pelo terço antes das missas na matriz e sempre tinha prêmio para os coroinhas com maior presença nas missas. Sem contar que após cada missa na matriz e depois de fechar a igreja, o padre sempre nos dava alguma bala ou às vezes o “melzinho”. Claro que o padre também tinha seus momentos de firmeza, ainda mais com toda aquela criançada que fazia algumas pequenas travessuras.

Foi daí que comecei a me questionar vocacionalmente e a desejar ser padre também. Entrei para o grupo dos vocacionados, fiz estágio vocacional e entrei no Centro de Orientação Vocacional, em Campo Grande, justamente no ano que ele e a congregação deixaram a paróquia de Bataguassu (2001). Encontrei-me novamente com ele em fevereiro de 2005, em Porto Alegre-RS, no dia em que ele estava voltando pra Itália.

Na minha ordenação sacerdotal, em 2012, lhe enviei um convite e ele muito gentilmente me respondeu dizendo que devido a sua saúde seria difícil participar, mas disse que estaria rezando por mim.

Já em 2015, a congregação me enviou para a Itália para um curso de três meses. Estando lá, junto a outros dois coirmãos, fui lhe fazer uma visita em Ferrara; era dia 15 de novembro, um domingo frio. Chegamos por volta das 10h e antes do almoço fomos convidados para celebrar a missa dominical na capela da casa. Éramos seis pessoas. O Pe. Ângelo não participou da missa pois já havia celebrado em sua paróquia. Os irmãos pediram então que um de nós, padres visitantes, pudesse presidir a celebração o que acabou ficando pra mim. Imaginem a vergonha, com meu italiano ainda iniciante, mas tentei. Pra minha surpresa, pouco antes da bênção final, Pe. Ângelo entrou na capela e se sentou ao fundo. Não sei o que passou na cabeça dele, mas na minha passou muita coisa: aquele menino do interior do Mato Grosso do Sul, que tocava a campainha pra visitar o padre e ganhar uma bala agora estava numa cidade da Itália, num altar, celebrando a santa missa e dando sua benção sacerdotal àquele que foi sua inspiração. Coisas que só a Divina Providência pode explicar.

Durante o almoço conversamos sobre muitas coisas. Pe. Ângelo perguntou de algumas pessoas e eu fui falando. Lembrou do meu pai, da minha mãe e até do meu irmão Edmar, chamando cada um pelo nome. Claro que também perguntou sobre minha avó, Dona Josefina. Ao final, me deu alguns presentes pra trazê-los aos familiares. Foi um dia bonito, foi a última vez que eu o vi pessoalmente.

Deus tem seus modos de agir e coloca pessoas em nossa vida pra nos mostrar o quanto nos ama e também qual o seu desejo pra nós. Creio que o Pe. Ângelo foi uma destas pessoas que Deus colocou em minha vida. Com seus pequenos gestos fui também pensando na minha vocação.  E aqui estou: pároco nesta paróquia que o acolheu por onze anos.

Serei sempre grato por tudo isso.

Pe. Éverton dos Santos, PSDP
Congregação dos Pobres Servos da Divina Providência