Entrevista com o Padroeiro

Nossa Paróquia tem a honra de entrevistar o nosso Padroeiro, Santo Antônio de Pádua, no dia em que se comemora sua festa. Para facilitar a leitura vamos usar PSA para a Paróquia que pergunta e SA, para Santo Antônio que responde.

PSA. Santo Antônio, muita gente lhe tem devoção, mas não conhece muito sobre a sua História. Poderia fazer um breve resumo de sua vida?

SA: Nossa! Minha história é muito longa, mas vou resumi-la.  Meu  nome de batismo é Fernando Antônio de Bulhões,  nasci em Lisboa, Portugal, em 15 de agosto do ano de 1195. Minha família era muito rica, sou filho único de meus pais Martinho de Bulhões, oficial do exército, e de Tereza Taveira. Minha formação inicial foi feita pelos cônegos da Catedral de Lisboa. Sempre gostei muito de estudar e de ficar mais recolhido.

Aos 19 anos entrei para o Mosteiro de São Vicente dos Cônegos Regulares de Santo Agostinho, contra a vontade de meu pai. Fiquei ali por por 2 anos. Aproveite muito da grande biblioteca do convento, em estudo e  oração. Fui transferido para Coimbra, que é um importante centro de estudos de Portugal, fiquei lá por 10 anos. Em Coimbra fui ordenado sacerdote.

Tornei-me franciscano em 1220 e viajei muito, vivendo inicialmente em Portugal, depois na Itália e na França, retornando posteriormente à Itália, onde encerrei minha carreira, aos 40 anos.  

PSA: Por que o nomearam o santo casamenteiro?

SA: RSRSRS A origem de toda essa tradição parte de algumas lendas populares aqui no Brasil. Uma delas conta que uma moça queria muito se casar, mas não tinha dote para oferecer – isto é, bens materiais para dar à família do noivo. Vale lembrar que esta prática machista ainda é comum em algumas partes do mundo. Desesperada para arrumar essas “doações”, uma vez que uma mulher que não se casasse era vista como inadequada na época, a mulher se ajoelhou aos pés de uma minha imagem e fez súplicas com muita fé. Pouco tempo depois, moedas de ouro surgiram de repente aos seus olhos e ela, então, pôde se casar.

Outra lenda conta que uma outra mulher, também devota, não aguentava mais estar solteira por tanto tempo. Em um momento de raiva, ela pegou a minha imagem e a arremessou janela à fora. A imagem acabou acertando um homem na rua. A moça foi socorrê-lo, pediu desculpas e logo eles iniciaram uma conversa que, posteriormente, se transformou em amor e eles se casaram.

Olha, até hoje tem destas coisas. Fazem de tudo com minha imagem. Tem gente, quando não consegue se casar, me amarra de cabeça para baixo numa fonte e me deixa lá até encontrar alguém para namorar.

PSA: casamenteiro ou não, o fato é que o senhor se tornou um santo muito poderoso e famoso, em todo mundo tem Igrejas e comunidades com o seu nome. Há quase 50 anos, o senhor se tornou o Padroeiro de Batayporã. O que o senhor acha disso?

SA: Em primeiro lugar, quero dizer, que é uma honra muito grande receber o grande carinho que o Povo de Batayporã tem por minha pessoa. Eu não faço nada de mais para isso. Esse Povo é um Povo abençoado por Deus pela sua grande fé. As homenagens que me são prestadas, elas refletem as homenagens e as orações deste Povo a Deus nosso Pai, a seu Filho Jesus Cristo nosso Irmão e ao Espírito Santo, o Grande Consolador.

Veja bem, este ano minha festa veio entre duas grandes Solenidades, Pentecostes e Corpus Christi, e esse Povo prepara tudo com muito amor. Não é só devoção, é fé, confiança e abandono nas mãos de nosso Deus.

PSA: Santo Antônio, vivemos hoje uma realidade muito difícil, principalmente no matrimônio. Como o senhor, o santo casamenteiro percebe isso? E o que fazer?

Família Linda: Mamãe Laís, Papai Renan e Filhinha Lívia

SA: Olha só, a vida sozinho tem algumas dificuldades, você imagina uma vida a dois, que depois se torna a três ou mais. O que eu vejo, é que as pessoas estão banalizando o amor. Qualquer sentimento mais intenso por alguém, já se diz que é amor, e na maioria das vezes não é. Amor não é apenas um sentimento, é um estado de vida. E é amor de verdade, quando quem vive esta experiência, arrisca tudo, principalmente a própria vida. Para amar de verdade demanda tempo de conhecimento, de partilha, de escuta, não pode ser questão de meses.

As pessoas me pedem namorados ou namoradas, mas quase nunca pedem um amor. E um amor não vem pronto como uma joia que você compra e sai usando.

Amor é uma construção, que se faz aos poucos. Neste espaço de tempo eu conheço as coisas boas e as coisas ruins da outra pessoa, e ao mesmo tempo vou me revelando a ela, em tudo aquilo que sou e como sou. Por isso defendo, que o tempo de namoro não seja apenas uns dias, mas que seja o mais longo possível. Peço que a Igreja prepare de verdade os noivos para que possam se descobrirem e se revelarem, de modo, que tomem a decisão de casarem-se de modo consciente. Que a Pastoral Familiar, não seja um “gueto” de encontros fechados, mas um espaço de escuta e acolhida das famílias, principalmente aquelas mais fragilizadas. Desafio os movimentos apostólicos a saírem dos seus “mundinhos” de auto consolação e abram-se aos casais, que por motivos legais não podem realizar o sacramento do matrimônio. Para que servem os movimentos e as pastorais de uma Igreja, se não é para atenderem e evangelizarem a família?

PSA: Ainda na linha evangelização. A nossa Paroquia, está no processo de implantação da Iniciação à Vida Cristã, a começar pela catequese. Houve muita murmuração quando se parou para formar os catequistas. O que o senhor pensa disso?

SA: Aplaudo de pé a inciativa da formação. Entendo as murmurações, afinal de contas é muito mais fácil viver um catolicismo, como uma espécie de maquiagem, sem comprometimento. Mas a iniciação à vida cristã não é um modelo novo, pelo contrário, o processo de conversão com estilo catecumenal é o modelo original de adesão à pessoa de Jesus Cristo. Quando a Paróquia entender que o caminho da iniciação à vida cristã é aquele, que mantém as pessoas fiéis ao evangelho e à doutrina, ela se tornará um espaço verdadeiramente cristão.

PSA: Somos uma paróquia urbano-rural e por conta destas características temos todas problemáticas da vida na área rural como também daquela da vida urbana. A maioria dos agentes sejam do executivo, do legislativo como do judiciário são fiéis de uma das tantas Igreja Cristãs existentes no município. Como o senhor vê a existência de tantas pessoas carentes e sem proteção mínima em nosso município?

SA: Voltemos no que falamos anteriormente na iniciação à vida cristã. Se essa situação de miséria ainda ocorre no município é porque a população ainda não é cristã, como foram os primeiros, que aderiram ao Projeto de Reino de Jesus Cristo, como narram os Atos dos Apóstolos: não havia necessitados entre eles. Se os políticos do município  fossem verdadeiramente cristãos, antes de quaisquer outras atitudes administrativas ou legislativas eles sanariam a fome das pessoas, implementariam a saúde e ofereciam uma educação de qualidade. E se os fiéis das Igrejas fossem verdadeiramente cristãos, certamente escolheriam entre eles os seus políticos, para que a comunidade fosse de verdade uma comunidade de irmãos, respeitando a escolha doutrinal de cada um, mas se uniriam para que os filhos e filhas de Deus desta cidade não tivessem que mendigar. Quer saber se um Povo é de verdade cristão, é só olhar como trata os mais vulneráveis.

PSA: Santo Antônio, o que o senhor pensa de uma pessoa, que se diz católica, mas pelos simples fato de estar numa função pública se deixa tomar pelo clima nem sempre cristão de alguns departamentos, e até se tornam perseguidores de outros seus pares fazendo de tudo para prejudica-los em suas funções?

SA: Católicos de verdade não perseguem por nenhum motivo outras pessoas sejam elas católicas ou não. Se uma pessoa que se diz católica e inclusive comunga do Corpo e do Sangue de Cristo, que para manter sua função em um órgão público persegue quem quer que seja, essa pessoa é qualquer coisa menos católica. Não se pode comungar o Corpo de Cristo e pisotear o corpo do irmão.

PSA: Estamos quase no fim da nossa entrevista. Mas não podemos encerrar sem fazer essa pergunta. O que o senhor pensa da situação da juventude de nossa cidade?

SA: minha resposta vale para Batayporã e para qualquer outo lugar do mundo. Não posso falar da juventude sem novamente tocar na família. Jovens não são seres de geração espontânea, são pessoas que nascem e crescem numa família. Se a família não cuidar de seus rebentos, quem poderá cuidar? Todos os dias se fala mal da escola, se critica as Igrejas imputando as estas instituições a culpa da atual situação em que se encontra mergulhada a juventude. A escola tem o rosto da sociedade. Uma sociedade, que não valoriza os seus educadores, e não só, aplaudem seus pequenos quando eles os desrespeitam, um pai ou mãe, que ao invés de agradecerem à escola quando os chama para falar dos seus filhos, agridem os dirigentes e atacam os professores, como podem exigir filhos saudáveis? Cristãos, que não ensinam desde pequeno a vida cristã, como podem cobrar da Igreja que os atraia com shows que duram uma hora e depois em casa o show é bem outro?

Não digo que os jovens não sejam responsáveis em serem melhores, mas eles só serão se seus pais forem melhores e lhes ensinarem o caminho.

PSA: Para encerrarmos. O que o senhor está achando da nossa homenagem ao seu dia?

SA: Se eu disser que não estou gostando estaria mentindo e sendo ingrato. Estou amando. É muito lindo ver uma comunidade envolvida em homenagear o seu padroeiro, neste caso, eu. Mas penso, que a festa seria muito maior se a outra parte da paróquia também estivesse aqui. A outra parte, que eu falo são os irmãos e irmãs da área rural. Sou padroeiro de toda a paróquia e não só da cidade. Uma outra coisa, me emocionei muito hoje ao ver tantos carros na carreata, mas aquela que pareceu uma interminável carreata não representa nem a metade dos católicos que no dia a dia e domingo a domingo sua para chegarem em seus trabalhos e na Igreja. Quem sabe na próxima homenagem as centenas de bicicletas que levam e trazem meus devotos possam também fazer a sua bicicleata. Só para registro, um dos policiais, que hoje fizeram a segurança da carreata, com a minha lembrança na mão, emocionado, disse: “vou levar para por em minha geladeira, estou precisando”. Espero que nas próximas festas meus devotos levem lembranças para suas geladeiras, suas bicicletas e suas casas.

Agradeço muito poder falar para este site. Ainda temos a festa social, irei torcer e proteger para que todos possam se divertir e se confraternizar, afinal de contas é meu dia: É DIA SE SANTO ANTÔNIO!

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Pobre Servo da Divina Providência. Assessor Paroquial da Pastoral da Comunicação. Secretário Executivo do Regional Oeste 1 - CNBB.