Ascensão do Senhor! Agora é a vossa vez! Vão lá e arrasem!

Quem ainda não passou por este momento, num dia desses irá passar. Não importa em que circunstâncias, se de grande impacto, ou até de um impacto puramente pessoal. Tomar decisão nunca foi fácil pra ninguém, nem mesmo para quem é exemplar como aprendiz. A celebração da Ascensão de Jesus, foi o grande momento daqueles 11 homens, que o seguiam para todos os lados, obedecendo as suas ordens e orientações, mesmo se às vezes resmungavam, ou até tentavam fazer tudo de seus próprios modos. Mas eles sempre sabiam, que quando algo não desse certo, tinham nas suas retaguardas, o Mestre, que consertava as coisas e ajudava corrigi-las. Isso até àquela fatídica sexta-feira, em que o projeto foi interrompido com a morte violenta e ignominiosa do Mestre, que foi pendurado numa cruz, para servir de exemplo para quem ousasse continuar fazendo o que ele fazia.

Com a Ressurreição, desfalcados de um dos seguidores, Judas, a esperança retorna para eles, mas o medo ainda permanecia. Eles viram o Senhor vivo, alguns tocaram inclusive em suas feridas, viram-no comer peixe assado em um misterioso fogo aceso na praia, onde costumavam pescar, mas não sabiam para onde ele se retirava, quando os deixava sós nos barcos, ou no esconderijo chamado cenáculo. Tudo era diferente. Antes o Mestre não dava um passo, sem que pelo menos três deles estivessem por perto, foi assim no Monte Tabor, quando ele se transfigurou de maneira esplendorosa, e foi assim também na pior noite de sua vida, no Getsêmani, quando sofrendo uma dor tão profunda da alma, ele suou sangue, na batalha entre beber o cálice ou desistir do projeto traçado pelo seu Pai.

Após quarenta dias entre idas e vindas, encontros e sumiços, vem o convite tão esperado: vão à Galileia, lá onde tudo havia começado, onde viveram os melhores dias de suas vidas, onde embevecidos ouviam os ensinamentos do Mestre. Foi ali, que entre 72, eles, não se sabe por que critérios foram escolhidos para estarem 24 horas com o Mestre.  Então surgem novas perspectivas: novos ventos sopraram, retomaremos o projeto, marcharemos sobre Jerusalém, desta vez triunfantes, porque não poderão  mais nos matarem, e caso acontecer, ressuscitaremos assim como ele ressuscitou, isso seria o maior dos planos, a maior prova de que Deus estava com eles, mas não aconteceu assim.

Na Galileia, exatamente porque foi la que tudo começou, é também de onde deverá prosseguir o grande projeto de Deus, a expansão do seu Reino, mas ainda nos moldes do seu Filho, que venceu a morte. A alegria de rever o Mestre, logo se anuvia com o anúncio de sua ida definitiva para junto do Pai, que ele sempre havia anunciado. Até aí, estavam tristes, mas sabiam que o Amigo e Mestre estava indo para um belo lugar, que todos anseiam ir, o Céu. Depois das despedidas, cada um voltaria para suas vidas, seguiriam como eram antes da experiência com o Mestre, e de vez em quando poderiam até se reencontrar para matarem saudades do tempo tão intenso que viveram juntos. E aí veio a surpresa: vocês não voltarão mais para a Galileia, se de verdade, querem me honrar como parece que querem, deixem tudo, e agora tudo é tudo, e recebam toda a autoridade que me foi dada na terra e no céu, e vão fazer outros discípulos meus em todos os povos, e não só, batizem-nos em nome do Pai do Filho e do Espírito Santo, e lhes ensinem a observar tudo o que ordenei também a vocês.

E agora, o que fazer? Não irem seria um sinal concreto de que fingiam, quando diziam que o amavam, que inclusive, agora sim morreria por ele. Irem, significava correrem os mesmos riscos que ele correu, e até bem pior, pois ele era Mestre, era Rabi, e eles? Simples pescadores, e o mais letrado, Mateus não gozava de boa fama, pois vinha da escória social, dos cobradores de impostos. O que fariam com esta proposta bombástica? Mas não tinha mais volta, o Mestre já não estará mais com eles. E o medo do Getsêmani voltou com mais força, só que desta vez haviam recebido uma garantia: haja o que houver, o Mestre afirmou, que estará com eles até o fim do mundo.

O Mestre não perguntou se eles queriam ou não seguirem o projeto. Também não lhes fez um convite, deu-lhes um mandato, tá bom, se lhes disse que doravante eles continuariam discípulos, mas com a autoridade do Mestre, mesmo assim, precisavam sentar-se para entender o que tudo isso significava e como tudo iria acontecer. Havia chegado a vez deles, o Mestre disse tudo como fazer, mas como podemos ter certeza de que vamos arrasar? Então é melhor esperarmos ainda o último recurso. Lembram, que ele disse que não ficaríamos órfãos? Então, é melhor esperarmos mais alguns dias para vermos o que vai acontecer. Até ficariam em casa, ainda de portas fechadas, porque mesmo tendo visto a Ressurreição e a Ascensão, tudo isso era muito novo para uns simples pescadores e um cobrador de impostos. Sabemos o que ele quer, mas não sabemos como. E o medo os colocou na mesma condição de todo mundo, quando está assustado, ficaram aguardando um sinal, algo que desestruturasse completamente suas ideias, seus conceitos, e principalmente suas cômodas vidas. É mais fácil enfrentar o mar e suas ondas, que enfrentar os revezes da missão.

E daí, o que fazer com o agora é a vossa vez! Vão lá e arrasem!?

Ir. Silvio da Silva
Pobre Servo da Divina Providência. Assessor Paroquial da Pastoral da Comunicação. Secretário Executivo do Regional Oeste 1 - CNBB.